Um Passeio por Lisboa.

Lisboa, quem é você?

 Ivanir Faria – Jornalista

 

Sou mais um escritor a tentar descrever Lisboa e, de antemão,  peço desculpa ao leitor por decepcioná-lo dizendo que não conseguirei porque nem mesmo Pessoa – “Oh, Lisboa, meu lar!” –  conseguiu. Lisboa não se descreve,  passeia-se. A Lisboa da qual falo aqui é a mesma que o poeta amava: “um labirinto espiritual, mágico e maldito” que se deve explorar vendo o sonho constantemente misturado com a realidade…

 

 

Do túnel do tempo

 

 

Uma velhota de mais de dois mil anos. Assim é Lisboa, uma cidade que se estendeu a partir de um castelo no alto de uma colina, o castelo de S. Jorge.     

É uma capital de múltiplas facetas, de aspecto antigo mesclado com moderno, de edifícios majestosos, com estátuas e monumentos pipocando aos nossos olhos, de ruas labirínticas calçadas com tapetes de pedras e arte.

Cidade cristã, Lisboa tem S. Vicente, o protetor dos pobres como seu padroeiro. A igreja a ele dedicada fica entre o castelo e o velho bairro de Alfama. Depois vem outras, muitas delas, cheias de santos e arte barroca, construídas e restauradas, reformadas e reavivadas.

Lisboa pode ter nascido de uma colônia fenícia, chamada Alis Ubbo “enseada amena”, embora os escritores antigos Varrão, Ptolomeu e Estrabão atestarem que foi fundada por Ulisses. A dúvida fica, mas foram os gregos que balizaram-na de Olisipo . Depois, duzentos anos antes da era cristã os Romanos mudaram seu nome para Felicitas Julia, e assim  permaneceu por mais de seissentos anos. Em 714, os Mulçumanos a dominaram passaram a chamá-la de Lixbuna. Em 1147 D. Afonso Henriques derrota os mulçumanos e nasce a nova Lissibona, nessa altura contando com 15.000 habitantes. Após mais alguns anos o nome se altera definitivamente  para Lisboa.

 

O olhar, o passeio

 

Caminhar por Lisboa é um exercício mais mental que físico. Os olhos atentos podem captar, desde o solo onde se pisa a arte das ruas calcetadas e desenhadas até os céus, de um azul monocrômico num dia sem nuvens e comtemplar tudo que se vê pela frente. Nas praças mil, pombos disputam migalhas e quase beliscam os pés de quem pára a fim de decifrar um dizer em latim num monumento ou admirar uma expressão na cara de uma estátua. Lisboa não existe sem seus detalhes arquitetônicos que contam histórias peculiares, que instiga seus transeuntes a buscar a verdade de cada detalhe, o porquê de cada traçado, a magia de cada painel de azulejos pintados a mão – e são vários, espalhados nas fachadas, nas janelas, nos jardins, por todo lado.

 

 

Monumento heradado

 

 

 

O Aqueduto das Águas Livres, construção de D. João V, em 1731, com seus 58 km de extensão  foi considerado monumento nacional incluindo o Reservatório da Mãe d´Água e da Patriarcal desde 2002. Deste monumento arquitetônico do século XVIII ou do mais recente monumento construído, Lisboa se mostra em passado e presente, fusão eterna do tempo que se escoa em total esplendor.

Quem nasce em regiões de  Lisboa  é “alfacinha” e todo alfacinha tem o seu mirante pessoal, seu café, bar e restaurante prediletos. Um mirante porque Lisboa é a capital das sete colinas , logo pode-se vislumbrar sua paisagem urbana desses pontos altos a olho nu, ou captar pormenores com a ajuda de uma lente de aproximação disponível ao valor de uma moeda. Lisboa também é conhecida como a Cidade das Mil Cores. Seu casario em tons pastel reviveu suas cores originais em ocasião da Lisboa 94, quando a cidade comportou-se muito bem como a Capital Européia da Cultura. Durante a década de 50 do século passado, quando Portugal vivia sob a ditadura, a cidade adotou o tom cinzento e ofuscou-se perante tal regime de governo. Recuperado seu colorido, até nos telhados castanho-avermelhados Lisboa iluminou-se.

 

 

 

 Um rio-mar

 

 

O rio Tejo é bênção dos céus para Lisboa. Vem de Espanha, espalha-se e espelha suas águas ora prateando, ora azulando, ora dourando aos nossos olhos, consoante a hora do dia e conforme a luz do sol. Depois prossegue a rota marítima, da zona oriental da cidade em direção ao alto mar. Esse rio que imita o mar, tem a água salgada e a segunda maior ponte de vão suspenso da Europa, a Ponte 25 de Abril, antes Ponte Salazar, que teve seu nome trocado como se os portugueses conseguissem encobrir seu passado político de outrora.

Há quem considere Lisboa triste. Para amenizar, contemplativa e melancólica, outros diriam. Sim, Lisboa remete a uma certa nostalgia, convida seus admiradores  ao isolamento e à evasão no tempo, talvez herança dos seu poetas românticos. As almas solitátias têm em Lisboa o seu porto seguro. Muitos reencontram-se quando perdidos no subir e descer das várias colinas, ouvindo o soar dos sinos das igrejas e a observar o deslizar lento dos ponteiros dos relógios antigos afixados em construções monumentais.

Um número sem fim de poemas e canções descrevem Lisboa na subjetividade de cada autor, os guias turísticos  resumem-se ao cardápio básico, um tanto quanto comercial, mas a cidade precisa ser explorada num trabalho de campo para tornar-se conhecida pelo visitante. E em recantos escondidos podem estar a realização aos olhos deste expectador. Lisboa tem sons que não são só os do fado insistindo em ser ouvido, mas carrega no ar as vozes humanas em profusão de uma Babel cosmopolita, as buzinas que gritam e desenrascam o trânsito caótico, comum em toda grande metrópole.

Os passantes emanam simpatia no olhar, sejam os 650  mil anfitriões, sejam os milhares de convidados  com olhos estrangeiros de descobridores. Consegue-se informações prontamente e perambular pela cidade é tarefa prazerosa, sempre. As montras exibem desde livros raros a prataria, das louças às últimas tendências da moda, dos carros aos sex-shops, cada vez mais presentes. As lojas “made in China” avisam que globalização da economia mundial tem aqui sua fatia reserva.

Encontra-se de tudo na Feira da Ladra…

Os museus de Lisboa são templos do antigo e do moderno. A Hístória de Portugal está ali guardada nos fragmentos que vem desde o Paleolítico. Dos quatrocentos mil anos que o homem faz história nesse extremo oeste do continente, os museus mostram a cerâmica, a tapeçaria, os trajes, os coches…

 

Lisboa é  mágica, misteriosa, taciturna, às vezes. Quando cai a noite, mesmo bem iluminada, estar a passear  requer cuidados redobrados. Os perigos da noite de qualquer cidade também aqui aparecem. Quando as paixões acontecem e inflamam os corações, as melodias se alastram e as janelas olham os casais entrelaçados. Os pubs  movimentados e a juventude a escorregar das danceterias que surgem do nada, poem-se a saltar nos carros e fazer cantar pneus. Nessas horas Lisboa é uma festa – com sua licença, Hemingway.

Em 1988  um gigantesco incêndio devastou o histórico bairro do Chiado, considerado o coração de Lisboa. Para se ter uma noção do tamanho estrago, esse  incêndio só se compra a outra tragédia em Portugal: o terremoto de 1755, que matou mais de 30 000 de seus habitantes e destruiu grande parte do centro de sua capital.

Não fosse o contínuo estalar, poderíamos pensar que, tal como na fábula, logo a formiguinha hibernasse, mas as obras não podem parar. Lisboa está em eterna operação plástica. São tantos os edifícios a precisar de reforma que precisam urgentemente de reparo que às vezes nem se sabe qual deve ter prioridade.

 

Arremato com um conselho  de Robert Brechón, biógrafo de Fernando Pessoa: “erre por Lisboa à procura de sensações, de impressões, de verdades, de encantamento e metamorfoses. A única saída que pode revelar-se é a do mito”.

 

 

 Artigo escrito em Novembro de 2005

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