Pisas Em Arte Quando Andas…

  
 
Pisas Em Arte Quando Andas…
 Ivanir Faria
 
Você nem imagina que mãos calejadas por carregar e martelar pedras no chão são mãos de artistas anônimos: dos calceteiros. Fazem eles uma arte para ser vista, mas que muitas das vezes, serve apenas para o transeunte apressar seu passo mais confortavelmente e seguir o seu destino
 
 
Em 1755 um gigantesco terrremoto arrasou Lisboa. Tempos depois, na altura da reconstrução, não bastava edificar: era preciso continuar a arte de embelezar a capital de Portugal. Mas como "na Natureza tudo se transforma", os seixos rolados pelo revoluto das águas durante o terremoto às margens do rio Tejo começaram então a ser usados para decoração. Essa Arte iniciou-se pelas bordaduras dos átrios e dos jardins de algumas residências particulares. Nascia assim um dos mais originais tapetes que imediatamente passariam a cobrir praças inteiras, ruas extensas, largos e calçadas da cidade. Em 1895 a Câmara Municipal de Lisboa oficializou a certidão de nascimento das composições estéticas dos empedrados da via pública batizando-a de "Calçada-Mosaico".
 
 
O Pai da Calçada-Mosaico
 
Entre 1840 e 1846 o tenente-general Eusébio Cândido Cordeiro Pinheiro Furtado ocupou o cargo de governador do Castelo de São Jorge, uma construção célebre de Lisboa.
Nesse período ele embelezou as estreitas vielas do castelo mandando-as calçar com pedras brancas e pretas.  Logo a seguir, Furtado criou o projeto do "Mar Largo" – aquele desenho das ondas, hoje um  dos mais conhecidos e repetidos temas – na grande praça D. Pedro IV no Rossio, centro de Lisboa. Nessa obra iniciada em 17 de agosto de 1848 foram gastos 323 dias e milhares de pedras calcárias brancas e outras tantas de pedras balsáticas negras. A pavimentação da praça, hoje reduzida de tamanho, foi feita com a colaboração dos presos do castelo São Jorge. Chegavam eles todas as manhãs arrastando seus grilhões e iniciavam seu árduo trabalho.Foi com o sucesso do "Mar Largo " que essa arte se popularizou. Esse tema foi além-mar, podendo ser visto, inclusive  na avenida Atlântica, famoso calçadão de Copacabana, no Rio de janeiro.
 
 
 Arte Passo a Passo
 
Uma equipe de trabalho de calceteiros é constituída por três pessoas. Um servente inicia o trabalho que é o de ajeitar o chão de terra, regularizando-o e fazendo uma espécie de caixa com 8 cm de profundidade com uma base de areia do rio ou areão-calcário. Vem então o calceteiro e assenta um molde de madeira contendo o desenho do motivo a ser feito, nivela-o e assenta as pedras do contorno. A seguir, levanta o molde e preenche os espaços vazios, completando o desenho a seguir com os vidraços (pedras) contrastantes. Para continuar o trabalho vem o batedor de maço, usando uma ferramenta pesada e grossa para obter o perfeito travamento do painel. Finalizando o trabalho, eles preenchem os pequenos intervalos com areia fina para manter as pedras firmes no lugar.
 
 
Baixe os Olhos
 
Da próxima vez que estiver a caminhar por Lisboa, Paris, Cidade do Cabo, Gênova, Nápoles, Rio de Janeiro, Caratinga (Minas Gerais, Brasil), pare um instante, baixe os olhos e repare:  pisas em flores, pássaros, ondas, peixes, palavras…
Admire, então, o trabalho das mãos operosas desses "ourives do chão". São artistas anônimos mas que inundam nossas cidades de Arte e fazem, assim, as pedras do nosso caminho estrategicamente organizadas para direcionar nossos passos e nossos olhos ao lugar mais belo que se possa chegar: à sensibilidade do Homem…
 
 
 
 
 
 
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