Desmentindo Boatos Em Desagravo a Miguel-Ângelo

 
 

A Histórias de Dois Fiéis Discípulos

 

Ivanir Faria

 

Contava um boato do século XVIII que Miguel-Ângelo Buonarroti, querendo pintar um crucifixo atraiu à sua casa um jovem para servir-lhe de modelo, atou-o a  uma cruz e atravessou-lhe o coração com um estile para assim apanhar ao vivo as imagens das contorsões e da agonia pelas quais teria Cristo passado. Essa lenda propagada durante algum tempo foi depois dissipada. O mais talentoso pintor e escultor de todos os tempos, cujas obras “são divinas mais que humanas”, jamais precisaria recorrer a um ato homicida, tamanha a força expressiva que havia em sua mente criativa.

 

Miguel-Ângelo Buonarroti nasceu a 6 de Março de 1475, em Caprese, Itália. A família morava em Florença, mas como o pai trabalhasse como regedor e precisasse viver nômade, levava junto a mulher. Já de regresso a Florença em Abril, o pequeno Buonarroti passou a respirar os ares das colinas e ruas daquela cidade, onde pernamaneceu até quase os vinte anos.

Numa Itália de estados ainda independentes e com sua história marcada por guerras entre as cidades, desde cedo o pequeno já retraçava o ABC, que para ele eram desenhos e figuras, e não sinais de sons.

De natureza contemplativa, quando jovem atraiu a atenção de Lourenço de Médicis, o mecenas, príncipe e  poeta. Adotado pelo “magnífico”, Miguel-Ângelo passou a viver em seu palácio onde recebeu educação esmerada voltada às Letras e à Arte.

Revelada sua genialidade logo a partir das primeiras obras talhadas em mármore, o jovem escultor vê-se em apuros com a morte de seu tutor. Perante as ameaças de guerras, Buonarroti precisou fugir de Florença, aportando em cidades vizinhas, mas jamais foi além de Veneza e Roma.

Meses depois, de regresso a Florença, inicia uma das suas obras mais conhecidas: David. Colocada junto ao palácio da Signoria, no coração da cidade, o gigante de mármore passou a ser o símbolo da libertação dos florentinos.

Coroado como Mestre, o artista passou a receber inúmeros discípulos interessados em tornar-se famosos no mundo das Artes. Foi durante toda a vida de Buonarroti, incontável o número de pupilos, mas dentre todos, dois se destacaram tamanho o amor que os unia ao Mestre. Abre-se aqui um parênteses para também dissipar outra calúnia proferida durante muitos anos contra o Mestre. Denunciado como homossexual em algumas biografias, o artista livra-se se tal acusação perante a exaustiva pesquisa do biógrafo Giovanni Papini, que em 1949 apresentou, em 471 páginas, a “Vida de Miguel-Ângelo na Vida de Seu Tempo”. Na obra completa lê-se várias “vidas” e vê-se que o interesse de Buonarroti estava mais voltado para o espírito do que para a carne e que sua busca pela companhia de belos jovens para seus modelos nada tem de mais, a não ser camuflar um complexo de inferioridade, perante sua feiura: “a minha face tem forma de pavor”.

Em 1545 chegava a Roma o jovem de vinte anos Ascanio Condivi para praticar Arte com o Mestre, o qual imediatamente se afeiçoou ao novo discípulo atraído mais pela sua brandura e bondade do que pelas suas qualidades de aspirante de artista. Este encontro foi o grande acontecimento na vida de Condivi pois sonhava aproximar-se do gênio que admirava fervorosamente. Foi graças a este discípulo que muito o  mundo moderno conheceu de Miguel-Ângelo. Levado a escrever a biografia do Mestre (publicada no Verão de 1553), Condivi, apesar de não ser um esmerado escritor relegou a todos faces da verdadeira história do artista, anotando suas citações durante os intervalos entre as aulas e trabalhos na oficina de escultura e os painéis de pintura, provavelmente dos afrescos da Capela Paulina.

Na segunda metade de 1554 Condivi teve de retornar à pátria, Ripatransone, pequena vila próxima do Adriático, onde executou diversos trabalhos. De sua autoria hoje restam apenas quinze pequenos quadros dos Mistérios da Virgem. Jamais esqueceu o Mestre, o qual voltou a encontrar pela última vez em 1561, prometendo publicar as rimas do amado Buonarroti, mas não pode realizar o intento: morreu afogado na Marechia, em 10 de  Dezembro de 1574, sem mesmo completar cinquenta anos.

Nas entrelinhas da biogarfia de Miguel-Ângelo, Condivi registrou um amor espiritual jamais visto entre mestre e aprendiz: uma amor desprovido de interesses humanos, sejam de quaisquer espécie ou natureza.

De 1530 a 1555 outro discípulo marcou presença na vida de Buonarroti. Jovem de humilde condição, mas de ânimo nobre, Francesco Amadori de Castel Durante, denominado “o Urbino” tornou-se o filho que Miguel-Ângelo nunca viria a ter. Honesto e pontual executor das vontades do Mestre, Francesco ajudou-o nas suas obras, assistiu-o amorosamente nas suas doenças, foi o seu braço direito e protetor, honrando-o como a um pai e fielmente amigo. O Urbino foi, na vida prática aquele dócil e fiel alter ego que era necessário a um grande criador como foi Buonarroti.

O Mestre, além de permitir que Francesco se casasse, consentiu que trouxesse a esposa e  a serva para sua casa. Meses depois apadrinhou o  “Miguel-Ângelo Amadori”, primeiro filho de Francesco.

Nos últimos meses de 1555, o Urbino adoeceu gravemente e faleceu a 3 de Dezembro. Da comoção e tristeza, Miguel-Ângelo jamais viria esquecer.

Francesco, o Urbino foi apenas auxiliar do Mestre nas pinturas do Juízo Final, que se encontra na Capela Sistina e nos afresco da Paulina. Tem como  única obra um busto de Bracci na igreja de Aracoeli, o que na verdade não é mais que uma prova que podia manejar o cinzel, sem ter executado, no entanto uma obra-prima.

Miguel-Ângelo morreu em 18 de Fevereiro de 1564. O gênio deixou no mundo físico imensos mármores domados em diversas Pietás, o Moisés, Os Escravos, Baco… Imensos painéis da Sistina e da Paulina como verdadeiras obras de arte, jamais ultrapassadas por outro artista, mas certamente levou consigo a maior das lições que o Homem vem  experimentar na Terra: o gozo espiritual que é criar e viver a maior de todas as obras de arte: a Verdadeira Amizade.

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