A Viagem da Estátua de David

David: Da Oficina à Praça da Signoria

 

Ivanir Faria

 

 

A graça da gigantesca figura branca representando David, na sua extraordinária perfeição técnica num harmonioso conjunto de belíssimas formas é rodeada de histórias, lendas e contratempos…

 

Estamos em Florença no ano de 1504. Miguel-Ângelo acaba de cinzelar

o imenso bloco de mármore com cinco metros de comprimento, trabalho ao qual dedicou-se

durante dois anos, e no qual muitas horas de sono perdidas

e refeições interrompidas foram o alimento para o sonho

do escultor que tinha “ mãos divinas, e o caráter demoníaco”…

David fora encomendado para representar a liberdade de Florença.

Em 25 de Janeiro uma comissão reunia para decidir o  local mais apropriado para erguer o símbolo da cidade. Leonardo da Vinci e Sandro Botticelli, apesar de inimigos de Miguel-Ângelo, encabeçavam a lista  da nata dos artistas florentinos que contava ainda com Andrea Del  Robbia, Filipino Lippi, Piero de Cosimo Rosseli, Giuliano da Sangallo, Lorenzo de Credi, Pegurino.

Quando Miguel-Ângelo descortinou as lonas que cercavam o gigante, todos ficaram boquiabertos. Perante todos reluzia um puríssimo mármore de Carrara, imaculado, finamente polido e divinamente talhado.

Diante deles uma perfeita obra de Arte. Parecia irreal. Parecia a todos um sonho, exceto para Da Vinci: o que vira era um pesadelo, um tormento, uma punhalada. Vergonha, ódio e indiganação apoderaram de Leonardo.

A Arte de Buonarroti feria a arte de Da Vinci. O talento do escultor era-lhe superior…

O choque foi tão profundo que a primeira reação de  Leonardo foi apontar um defeito no gigante: as mãos desproporcionadas…

_”Ora ora, por acaso o modelo até as tem assim. Percebeis,  messere da Vinci?”, sentenciou Buonarroti, pondo um ponto final e inibindo quaisquer outras ponderações contra a sua perfeita obra.

A opinião de Da Vinte era expor o David no ambiente fechado, no centro da Logia dos Lanzi, resguardando-a de todo mal, mas calou-se.

Manifestá-la poderia parecer sintoma de inveja. Por quase imposição de Miguel-Ângelo e aprovação dos demais o destino do gigante seria a Praça da Signoria, em frente ao Palazzo Vecchio…

No fim da tarde de 14 de Maio o gigante de dez toneladas inicia sua viagem até a Praça da Signoria. Puxando o mármore que deslizava sobre vigas untadas com sebo, quarenta homens eram orientados pelo arquiteto Cronacca. Este inventara um sistema de roldanas e contra-pesos, graças ao qual a estátua ficava suspensa numa armação de madeira sem o perigo de se quebrar.

A viagem durou quatro dias. Durante as noites, soldados formavam um pelotão de guarda armados e iluminados por archotes, a fim de afastar os inimigos de Buonarroti incitados em apedrejar o Gigante. Só no dia 18 chegaram à praça. O dia fixado pelos astrólogos como bom augúrio chegara e então o monumento ganhou todos os olhares florentinos que se acotovelavam para ver erguido o seu símbolo de liberdade.

 

 

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