Como Nasceu a Saudade

Como Nasceu a Saudade

Ancorado no Douro, Aos Pés do Porto, o Barco "SAUDADE"

Palavra exclusiva da Língua Portuguesa: traduz um sentimento, muitas vezes sem tradução, como escreveu Pessoa:

“Saudades, só os portugueses
conseguem sentí-las bem
Porque têm essa palavra
para dizer que as tem”.

A Origem Geográfica

Países irmãos, da mesma estirpe e do mesmo destino eram Galiza (hoje Espanha) e Portugal. Não se sabia se eram irmãos ou namorados, o fato é que a Norte, só as águas de um rio – o Minho – os separavam. Este rio surgiu da junção de outros dois, o Borga e o Louro, num lugar chamado “Fontemiña” ( = Fonte Minha) e passou a ser conhecido como a Ribeyra Minha. Por um fenômeno linguístico, o pronome possessivo feminino “minha” tem hoje, o masculino “meu”, mas naquela altura, o rio ficou batizado de “Minho”, e assim ainda o é…

As Pessoas

Da Borgonha, Raimundo e Henrique vieram. Casaram-se com as duas irmãs princesas de Portugal, Tareja e Urraca. Os filhos que nasceram do lado de cá e do lado de lá da Ribeyra Minha deram origem a duas nacionalidades. Afonso Raimundes (quer dizer, filho de Raimundo) passou a tomar conta do condado da Galiza; Afonso Henriques (quer dizer, filho de Henrique) travou lutas a golpes de espada e alargou o Condado Portucalense para além do Rio Tejo.

A Língua

Sendo os dois países da mesma estirpe, seu falar era comum. Reconhece-se esta origem desde os Cancioneiros. Não o só o falar era comum, como era comum a mesma intuição marinheira, estando as duas nações sempre em frente ao mar, em viagens sem fim, como o mesmo propósito de desbravar. Sendo viajantes da mesma “família”, era natural que o povo da outra margem sentisse também “la saudade.” A palavra“soledade” foi utilizada na Galiza até ao século XV. Nas Cantigas de Santa Maria, Afonso X versava a palavra “soidade”, a mesma forma utilizada por el-rei D. Dinis nas suas cantigas de amor ou de amigo. Já o povo, em seu dia a dia, preferia usar “suidade”. Assim viajou a palavra e não só, mas também a ideia, o sentimento.

No Dicionário

Carolina Michaëlis de Vasconcelos assim descreve a Saudade: “Lembrança dolorosa de um bem que está ausente, ou de que estamos ausentes – esse bem desejado, ausente, pode ser: tanto a terra em que nascemos, o lar e a família, os companheiros de infância, como a bem-amada ou o bem-amado.”

Ramon Piñeiro, desenvolvendo uma pesquisa de D. Miguel de Unamuno, considerava a saudade como “uma peculiaridade de criação galaico-portuguesa, em matizada relação com a angústia existencial.”

Texto baseado no livro: “Os Mais Belos Rios de Portugal” – João Conde Veiga – Ed. Verbo

Uma Flor Chamada de “Saudade”

Em 1849 nasceu em Tramagal, vila a cerca de dez quilômetros de Abrantes, em Portugal, Adelaide Serafim. Tornou-se artesã e foi quem provavelmente criou uma flor de papel à qual deu-se o nome de “saudade.” Tia Adelaide passou a transmitir a arte de confeccionar flores de papel: círculos de papel de seda, picotados à volta, formando um encaracolado. Depois eram agrupadas em uma haste de arame encapado. A haste era dornada com uma ou duas folhas de papel prateado, o mesmo que era utilizado em salpicos para ser o miolo da flor. Como símbolo de última homenagem, estas flores eram depositadas sobres os defuntos. Consoante a idade do falecido, escolhiam-se as cores entre a roxa, cor de rosa ou branca.

Texto baseado no livro: “Artes e Tradições de Abrantes” – Ed. Terra Livre – 1983

Mas Esta Flor Existe…

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Uma resposta a Como Nasceu a Saudade

  1. Alessandro Marques de Siqueira diz:

    É sempre engrandecedor ler um texto de boa qualidade, ainda mais quando o tema e o autor se confundem. Digo isto porque, neste momento, estou saudoso de meu amigo Ivanir, que já não vejo há quase 7 anos!!! Quantas saudades…

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