Lenço dos Namorados

“Aqui bai este lencinho”…

Numa peça pequenina, traduzem as mulheres do Minho os seus sentimentos de Amor.

Ivanir  Faria

“Aceita com todo gosto/ Foi feito para te dar/ Uma pecena lembranca/ Pra nunca mais te deixar”

Quando a menina minhota entrava na adolescência e já se sentia “moça” era a hora de começar a pensar no futuro casamento. O primeiro passo era preparar um traje de festa chamado de “trajo domingueiro”. Tratava-se de uma saia, um avental ricamente bordado a mão, uma blusa, um xaile ou lenço para os ombros, um lenço de cabeça, meias, sapatos, um chapéu de sol – ou de chuva (sombrinha) e, o mais importante: um lenço branco em algodão bordado pelas mãos da  jovem. Neste lenço, com linhas e agulha ela salpicava flores, bichos, laços e palavras de amor. Muitas das vezes a escolaridade era pouca, ou nenhuma, mas isto não impedia que as trocas ou faltas de letras impedissem que o recado chegasse ao coração do pretendente…

Trajo Domingueiro da Minhota

Este traje seria usado em datas especiais ao longo de sua vida: missas solenes, festas e romarias, o próprio casamento, aos que fosse como convidada, batizados e, finalmente, era  a roupa que lhe vestiam para ser enterrada. Às costureiras das redondezas era incumbida a tarefa da confecção (deixando sobras de tecido nas costuras para os ajustes necessários ao longo dos anos) do mais vistoso e rico traje que as posses do pai da moça permitia comprar. A ela cabia a tarefa de o embelezar (sem pressa alguma) com bordados de sua própria inspiração nos longos serões e, noite após noite, depois de um dia inteiro de árduas tarefas no campo ou na lida doméstica, datava o trabalho e o dava por encerrado.

“Assim como neste lenco/ Os fios unidos sao/ Assim se ade unir/ O meu e o teu coracao”

O lenço era confeccionado quadrado, com 50 ou 60cm de lados em algodão fino, muito branco. Não era usado o linho pela irregularidade dos fios. Em alguns usavam rendas de entremeio, sempre feitas à mão para intercalar o tecido onde eram feitos bordados em ponto de cruz. Mais tarde passaram a bordar com pontos corridos e maior variedades de cores. Este tipo de pontos permitia uma escrita mais original e pode ser acrescentada a originalidade (não intencional) dos erros de ortografia: “Ismelo este lencinho/ Cum raminho de felores/ Eu bem sei que o bou dar/ A quem tem outros amores”.

“Coando vires a tarde scora/ Nevoada pra morrer/ Lembra te que são meus olhos/ A chorar por nao te ver”

Se a moça já tivesse um namorado, o trabalho no lenço era ainda mais inspirado pela sua paixão. Nasciam devagar as silvas, malmequeres e arabescos. Bordava corações e chaves para os abrirem entre laços, borboletas, pombas, cruzes, cãezinhos, cestas floridas, mais florinhas e, o mais importantes, as frases que o coração lhe ditava. É importante saber que este lenço era oferecido, ou melhor, “confiado” ao pretendente que o usava de forma bem visível. As demais solteiras depois que o vissem, obedeciam ao aviso em código e não se aproximavam com segundas intenções.

“Com a cuca bou cabar/ Com a pena bou escreber/ Uma letra que so diga/ Sou te firme ate morrer”
De “Lenço dos Namorados” a “Lenço dos Pedidos”
Nas missas da primeira comunhão é comum as crianças segurarem as velas com antigos “lenços dos namorados”, assim como em festas e romarias de todo o Norte de Portugal é tradição os homens que carregam os pesados andores protegerem/enfeitarem os ombros com os lenços. Como hoje estão escassos, a saída é as “mordomas” da festa os pedirem emprestados (com a missão de os devolver tal e qual saíram das zelosas mãos de suas donas). Mas para quem os empresta, não há maior satisfação em fazê-lo! Daí vem o novo nome: “lenço dos pedidos”, ou seja pedidos emprestados…
“Recebe amor este lenco/ Não tesquecas mais demim/ Este primor de amisade/ Que nunca mais tera fim”

O pequeno lenço era guarnecido nas bainhas com uma fina renda (crochê) ou debruado com ponto cheio com fio preto – requerendo ainda mais cuidado – à luz de velas e candeeiros – pois uma mínima imperfeição realçaria no contraste das cores.

“Bai lenco da minha mao/ Bai correr a freguesia/ Bai dar informacoes/ Da minha sabedoria”

É claro que, se  por vezes o “comprometido” queria desfrutar de alguma liberdade, ocultava o lenço na algibeira. E se porventura os ventos do amor mudassem de direção, o lenço era devolvido, assim como também eram feitas as destrocas  das cartinhas de amor, dos postais e flores secas atadas com fitas. A raridade destes lenços hoje os fizeram objetos de desejo, podendo chegar a custar até às centenas de euros, em casa especializadas.

A Riqueza  dos Bordados em Ponto de Cruz num Avental Minhoto

As pesquisas para este artigo foram feitas em jornais e revistas, mas principalmente no livro:

“Como Trajava o Povo Português” – INATEL – Instituto Nacional para Aproveitamento dos Tempos Livres dos trabalhos” – 1991 – Fotos idem.

Algumas fotos da Internet.

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2 respostas a Lenço dos Namorados

  1. Elisangela diz:

    Incrível como algo pode ser tão simples, mas ao mesmo tempo tão belo, achei lindo e romântico quanta dedicação para demonstrar amor!
    Prova de amor , onde toda dedicação pode ser vista e admirada em cada ponto .

  2. Fabio diz:

    Estão todos bonitos
    No meu colégio a minha professora mandou pesquisar o que eram os lenços dos namorados. Aqui encontrei a minha pesquisa.

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