O Último Dia da Fazenda Da Boa Fé

O Último Dia da Fazenda Da Boa Fé

Ivanir Faria

Hoje, 3o de Outubro de 2011, é o último dia de vida da “Fazenda Boa Fé”. Amanhã a casa sede da fazenda será demolida e dará lugar a uma nova casa. Iniciará uma nova história no lugar onde era a “Casa da Vovó Tina”… Que tristeza!!!

Uma Casa Rica de Histórias

Meus avós casaram-se em 1919 e moraram em Sacramento, MG. Mais tarde compraram uma propriedade rural no município de Raul Soares. Havia uma grande casa que reformaram e que passou a ser a sede da fazenda. A “casa da Vovó Tina”, como todos os netos a conheciam, era um lugar mágico que esteve de pé durante mais 62 anos, uma vez que a data que vovô mandara escrever era a da reforma. Na parede da frente estava escrito a data da construção e o nome ” 2 DO 12 DE 1949 – FAZENDA DA BOA FÉ – A.C.F. “A.C.F. eram as iniciais do nome de meu avô Alvim Corrêa de Faria, seu proprietário . Foram estas letras que antes de aprender a ler e escrever eu tentei decifrar em palavras e frases de grande significado para quem as encomendou, para quem as leu e releu ao longo dos anos ao chegar à frente da casa. Imagino que outros primos, outras crianças, assim como eu, também as tentaram decifrar.

Cristo Reina Neste Lar

Na lateral direita da casa estava escrito “CRISTO REINA NESTE LAR”, uma extensão do nome “Boa Fé”. Fé em Cristo que ali reinou e protegeu uma família numerosa de filhos, netos e bisnetos. Vovó passou por grandes provações, mas jamais perdeu a sua Fé! Perdeu uma filha carbonizada na bancada do fogão da cozinha e viu o marido ser arrastado para uma cama, atrofiado para sempre, viu familiares adoecerem, outros partirem, mas jamais desistiu…

A casa estava centrada no terreno e à sua volta diversas árvores frutíferas formavam o pomar plantado pelos meus avós e pelos meus tios: mangueiras, jabuticabeiras, bananeiras, laranjeiras, abacateiros, o jambeiro que nós chamávamos de “pé de jambo” e que ficava à beira do riacho onde pegávamos pequenos peixes ou girinos com as mãos, o pé de jaca, as moitas de cana-de-açúcar, os limoeiros, um cacaueiro e um castanheiro, um pé de fruta-pão, árvores raras naquela região, dentre outras.

Havia um ritual a cumprir, imposto pelas nossas Mães, ao chegarmos na casa da Vovó. Mesmo que os nosso olhos mirassem as laranjeiras ou jabuticabeiras salpicadas de frutas à entrada depois da porteira, a primeira coisa a fazer era entrar para “tomar a bença” à Vovó Tina, ao Vovô Alvim e aos Tios. Ela estava sempre ocupada na cozinha. Entrávamos pela porta da frente, a porta sala grande, ou raramente, pela porta da cozinha. Mas a casa tinha quatro portas de entrada, uma em cada lado. Portanto, a fazenda tinha quatro salas de entrada. Íamos até a grande cozinha onde o fogão de lenha estava sempre aceso, cumprimentávamos quem ali estivesse e sentávamos em um dos bancos que circulavam aquele cômodo. Depois de um tempo curto éramos chamados ao quarto do casal onde Vovô estava acamado há muitos anos. Ele ficara paraplégico aos 69 anos de idade ao agarrar sozinho uma leitoa muito pesada e teimosa  para colocá-la dentro do chiqueiro. Vovô estava com a pele muito branca por não tomar sol e tinha as mãos muito finas e macias, sempre estendidas para abençoar os filhos e netos que chegavam para visitá-lo. Eram as mesmas que outrora foram calejadas e ficaram grossas pelo árduo trabalho na roça. Antes do acidente Vovô Alvim acordava de madrugada e “dormia com as galinhas”, quero dizer, muito cedo. Trabalhava de sol a sol. Eu o conheci já naquela cama de lençóis alvejados, sempre muito limpa, num quarto arejado. Entretanto as lembranças que guardo dele são de uma pessoa serena, conformada com sua situação, sorridente e atenciosa. Vovô ficou acamado por quase 13 anos, até falecer. Após as formalidades da visita e aquela que para nós era uma longa espera, Vovó Tina nos dizia que podíamos ir às frutas. Nunca houve uma vez que lá chegamos sem ter uma fruta da época. Se era a época das laranjas ela entregava uma faca ao mais velho dos netos para este descascar as laranjas para os mais novos. Se era a altura das jabuticabas recebíamos uma tigela ou cesto para encher de frutas. Quando as frutas ainda não estavam maduras, restavam as canas-de-açúcar tão doces que melavam os cantos da boca e pingavam no peito.

Meu Irmão Clério Que Foi Criado na Fazenda Por Vovó Tina

Eu guardo belas recordações de Vovó Tina. Albertina Maria Nunes era seu nome, mas fora reduzido a “Tina” em diversas formas: Comadre Tina, Dona Tina, Mamãe Tina, Vovó Tina, Tia Tina, Madrinha Tina, Mãe Tina… Era parteira, costureira, cuidava da casa, ordenhava, era boa cozinheira, benzedeira, rezadeira, professora primária, cuidava de doentes sem ser enfermeira, administrava os empregados da fazenda que trabalhavam no campo, os agregados e ainda zelava os meus três tios “especiais”: Tio Neca, Tia Nina e Tia Nerica, os três que envelheceram sendo eternas crianças até recentemente falecerem…

Meu Sobrinho Eudes e Seu Pai, Clério Despedindo-se da Fazenda da Boa Fé...

A Fazenda da Boa Fé

Além da casa grande, a “Fazenda da Boa Fé” era composta por um grande curral, um chiqueiro de porcos, um paiol para os mantimentos e ferramentas, o galinheiro, a horta e o engenho de cana-de-açúcar onde extraía-se a garapa, fazia o melado e a rapadura. A propriedade inicialmente era voltada à pecuária e mais tarde transformou-se em plantação de café. A fazenda da Vovó Tina nunca tinha portas fechadas a ninguém. Quem ali chegava era bem recebido com uma caneca de café, uma fatia de broa de fubá ou bolinhos de polvilho, almoço e jantar e cama, quando era o caso dos forasteiros, dos parentes e dos inúmeros afilhados da “Madrinha Tina” espalhados por todos os cantos. Quando Vovó faleceu, em 1982, a comunidade acompanhou com pesar um dos maiores cortejos fúnebres da região. Pessoas parentes e amigas vieram de longe prestar-lhe as últimas homenagens. Quantas lágrimas, quantos lamentos de todos!

Hoje as lágrimas minhas e do meu irmão Clério são por outro motivo: pelo desaparecimento casa grande, sinônimo da FAZENDA DA BOA FÉ. Será derrubada a partir de amanhã. O que levou anos a ser erguido levará poucos dias a ser destruído e substituído! A casa foi herdada pelo meu tio mais novo e agora foi vendida. O abandono levou-a à degradação e um comprador estranho não teria a intenção de restaurar para preservar uma história da qual não fez parte, que não foi a história da sua família. A história da Fazenda da Boa Fé de uma certa “Vovó Tina” que não foi sua avó, nem sua madrinha, ou tia, ou comadre de sua mãe e que certamente não traz-lhe nenhuma lembrança ou emoção…

Agradeço ao Clério que atendeu ao meu pedido de fotografar a casa antes da demolição.

Eu terminei de escrever este artigo antes de registrar tudo o que lembrava ou precisava de escrever para ficar completo.  Assim como muitos que chorarão pela perda deste pedaço vivo de nossa memória, o Clério e eu estamos em lágrimas e já não há mais nada a fazer, senão guardar todas as nossas boas lembranças da “Casa da Vovó Tina”…

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2 respostas a O Último Dia da Fazenda Da Boa Fé

  1. Patrícia diz:

    Tio li o seu documentário… Fiquei triste e tbm chorei,pq frequentei a casa e restará em minha memória a lembrança da ‘pituquinha’ da vovó .

  2. Elisangela diz:

    Amigo também tenho na lembrança a casa da vovó, me emocionei muito, sua história é também a história de muitos netos que vão se emocionar ao lê-la. Mas nos somos felizes porque tivemos uma vovó para lembrar, a velha casa, o carinho, os doces, as brincadeiras a felicidade do lugar, sei que na lembrança esse lugar sempre existirá, a cada vez que fechar os olhos, la dentro de você a velha casa estará para sempre.

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