Feijoada Brasileira

A Feijoada Não é Brasileira, é Multinacional!!!

Veio de fora, na sua mais genuína concepção, mas adaptaram a ela os ingredientes locais. E assim se fez nascer a “Feijoada Brasileira”…

Guilherme Figueiredo (escritor e teatrólogo, gastrônomo e gastrólogo) assim descreveu a “louca” Feijoada Carioca: “O mais carioca dos pratos cariocas é degeneração do “cassoulet” francês e da caldeirada lusa, casados por cima dos Pirenéus e descidos juntos, Atlântico abaixo, tornada “cachupa” de favonas de milho em Cabo Verde, depois aqui enegrecida de feijões negros”.

Para entender o nascimento da Feijoada Brasileira é preciso recuar no tempo, debruçar sobre trabalhos de historiadores, ler e analisar fatos e comparar relatos. Não é tarefa fácil e quem tiver (se calhar alguém já teve…) tal disponibilidade de tempo terá sob sua assinatura uma tese gastronômica muito interessante.

Eu quero avançar um pouco nesta procura da identidade de nossa feijoada, sem a pretensão de teses, apenas para sanar meras curiosidades. Comecemos por analisar as palavras de Figueiredo.

O Cassoulet  é um Estufado (cozido de carnes) de Toulouse, França. A palavra cassoulet vem de cassole, nome do prato de barro vidrado em que o cassoulet é gratinado. O principal ingrediente no cassoulet é o feijão branco. Como os franceses são extremamente exigentes na escollha de seus ingredientes, este feijão branco tem de ser de plantações de Cazères ou de Pamiers, e deve ter sido colhido há menos de uma ano. A este ingrediente juntam-se diversas carnes, consoante a região. A versão mais antiga do cassoulet é a de Castelnaudary. É também a mais simples. Em Carcassonne juntaram perna de borrego e perdiz na época da caça; EmToulouse, chouriço de Toulouse, perna de borrego e confit; Em Limouz acrescentaram rabos de porco; Em Mas dÁzil juntaram tripas e em Périgord, pescoço de ganso recheado e confit.

Inicialmente o feijão branco foi levado de Espanha para França, no século XVI.

Feijoada à Minha Moda

Vinicius de Moraes


Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora — perdoe — tão tarde


(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.


Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho


E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte


Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho — e o que mais for azado


Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais… vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo.


Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks


Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão


E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas


De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)


E — atenção! — segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.


Feito o quê, retire-se o caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso


Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.

Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de lingüiça


Enquanto ao lado, em fogo brando
Dismilingüindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso

Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.


Uma farofa? — tem seus dias…
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) — e chega


Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da lingüiça na iguaria — e mexa-se.


Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
— Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão…


Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta…— jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O seu Vinicius de Moraes


Texto extraído do livro “Para viver um grande amor”, Livraria José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1984, pág. 97.

 

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